A Touch of Sin (Tian zhu ding, 2013)

Descobrir as obras de Jia Zhang-ke tem se revelado uma incrível jornada cinéfila. Comecei por O Mundo, sobre a qual já escrevi um post, e passei a admirar imediatamente a maneira que o diretor utiliza sua lente para não só contar sua história, mas comentar de forma agressiva o estado de sua terra natal. Seu talento é evidenciado tanto pelos seus longas como também por seus curtas metragens, como Black Breakfast ou mesmo Venezia 70 Future Reloaded, demonstrando que consegue transmitir seus ideais em diversos formatos.

Os personagens criados por Jia pertencem a mesma China diegética, um país que vem passando por drásticas mudanças tanto em seu âmbito político quanto  ambiental. São eles os trabalhadores invisíveis daquela China que serve atualmente como exemplo de prosperidade que o mercado aberto pode trazer. Infelizmente para esses  seres dolorosamente reais, eles não foram convidados à fartura do capitalismo no gigante asiático, limitando-se a sobreviver à margem de uma sociedade que não consegue definir seus valores,  entregando-se a constante enclaves entre o tradicionalismo e o modernismo; o idealismo e o realismo.

Frequentemente em suas projeções, Jia enquadra as espessas nuvens expelidas pelas numerosas fornalhas das fábricas que compõem o atual cenário chinês, asfixiando lentamente seus conterrâneos metaforicamente e, por vezes, literalmente como no caso de O Mundo. O peso dessa espessa neblina que cobre os céus é visível não só sobre seus protagonistas, mas em todos os habitantes que se encontram em quadro, mesmo aquelas dezenas de anônimos. No curta Black Breakfast, um casal de namorados flerta através de máscaras médicas enquanto a turista percorre a paisagem em busca da verdadeira China moderna, encontrando-a infelizmente escondida atrás dos rostos encardidos dos funcionários que se alimentam em meio à poluição industrial. Ao mesmo passo, o plano final de O Mundo retrata uma lenta contaminação que inevitavelmente resultará na asfixia de uma nação inteira. E ainda, em Venezia 70 Future Reloaded, ele utiliza-se de passagens de clássicos chineses, contrastando poeticamente a distância que separa seus antepassados da geração mais jovem que vive majoritariamente nas grandes metrópoles.

Com seis filmes de ficção no currículo e mais uma série de curtas, o diretor asiático criou então um claustrofóbico mundo no qual a cada obra descobrimos mais uma triste faceta daquele universo, conhecendo uma galeria de personagens reclusos naquela realidade. Esteticamente, suas projeções mantém um equilíbrio em tonalidade, mantendo-se fiel ao estilo que apelidara de “digital-poético”, desenvolvendo suas figuras dramáticas através de planos longos e abertos. Seu ritmo é lento, suas pausas longas, acompanhamos aquelas pessoas em suas rotinas com certo distanciamento. É como se acompanhássemos em tempo real o entediante desenrolar daquelas vidas, frequentemente assistindo passagens que não parecem ter propósito na narrativa, sentimento compartilhado por seus protagonistas que não enxergam muito propósito em suas existências.

Isto é, até chegarmos em A Touch of Sin, este que, em minha opinião, é o melhor filme de 2013.

Desde suas cena inicial, Jia destoa de suas principais obras ao utilizar-se de uma linguagem oposta a que desenvolvera até então, criando quadros que se destacam pelo preciosismo técnico como o uso de travellings rápidos ou tilts de câmera, aproximando-se dos tradicionais filmes de artes marciais produzidos no país ou mesmo em Hollywood. Recursos técnicos que utiliza com inquestionável talento, vale ressaltar. Abrindo a projeção com uma cena violenta, o diretor deixa claro que há uma ebulição no país asiático que não será contida sem devidas mudanças estruturais. Os próximos quatro episódios, todos baseados em manchetes reais, servem como afirmação deste contexto social, já que A Touch of Sin segue seus quatro protagonistas enquanto estes entregam-se invariavelmente a atos grotescos de brutalidade. 

A primeira dessas narrativas foca-se na cultura do exibicionismo daqueles que prosperam em detrimento de outros, destacando a relação trabalhador/patrão através da ótica de Dahai (Jiang Wu), que se indigna com as injustiças impostas por seu empregador. Ao passo que, no segundo episódio, somos apresentados àqueles que escolheram um caminho oposto do de Dahai, buscando a sobrevivência através de meios ilegais, como no caso de Zhou San (Wang Baqiang). Já Xiao Yu (Zhao Tao, esposa de Jia Zhang-ke) protagoniza um lado sexista do país, aquele que trata as mulheres como objetos. Finalmente, a última narrativa protagonizada por Xiao Hui (Luo Lanshan) representa os encalços que a nova geração jovem sofre financeiramente, numa realidade em que o menor erro torna-se um problema intransponível com efeitos duradouros para o resto da vida. 

O roteiro vencedor da Palme D’Oure em Cannes em 2013 faz questão de destacar que suas figuras centrais são peças que pertencem a um contexto social. Acompanhamo-nos quase ao acaso quando a câmera encontra o novo protagonista e o segue, demonstrando assim que os eventos violentos não tomam forma nas mãos de pessoas especiais, mas sim no produto de uma sociedade que puxa os seus até o limite. De certa maneira, este filme é o clímax que Jia vem construindo em suas obras desde A Plataforma (2000), seu longa de estréia, já que é possível imaginar qualquer um de seus antigos personagens passando exatamente pelas mesmas tragédias que os encontrados aqui. Simbolicamente, o roteiro ainda faz frequentes menções à mitologia chinesa, como a constante comparação com os animais do calendário, ou ao passado comunista do país, como na passagem no hotel da quarta história onde as dançarinas vestem-se como o exército vermelho desfilando dentro de um símbolo capitalista.

Mesmo utilizando-se de recursos narrativos comuns em obras de ação, o diretor evita transformar as erupções violentas em momentos estilizados ou de catarse coletiva (nesse sentido, talvez ele erre a mão no terceiro curta, exagerando na coreografia de um momento em particular). Diferente das obras que dominam os Arteplex mundo afora, aqui cada tiro ou golpe desferido é feio e doloroso. Jia faz ainda questão de não desviar sua câmera no último minuto, apresentando em toda sua brutalidade o resultado de um tiro de espingarda na carne. Uma briga na beira de um penhasco é patética e perigosa, nunca envolvente. O espírito animal do ser humano é retratado em sua forma crua e horrível. Mesmo havendo espaço em certas situações para catarse quando os personagens chegam em seus limites contra a injustiça, a narrativa nunca perde o foco em demonstrar a verdadeira tragédia por trás daqueles atos, nunca vangloriando suas escolhas mesmo que por vezes justificáveis.

Em entrevista para o Sinosphere, Jia afirma que “[os eventos] não são mais casos isolados. Há razões sociais profundas do por quê eles ocorrem. Então eu achei que usando múltiplas histórias estamos contando às pessoas que isso não é necessariamente uma exceção, nem é um caso isolado ou extremo. Esse tipo de história acontece na China o tempo inteiro”.

Contendo momentos memoráveis de um cinema construído em cima de ideias, Jia Zhang-ke comprova seu talento mais uma vez ao compor uma obra que encara o espectador de frente, sem medo de exprimir suas opiniões e que contesta a ordem atual de uma sociedade que ignora alguns de seus problemas mais fundamentais.  

2 thoughts on “A Touch of Sin (Tian zhu ding, 2013)

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