Momentos: Era Uma Vez em Anatólia (Bir Zamanlar Anadolu’da, 2011)

O propósito da categoria “Momentos” é discutir em detalhes alguma cena em particular que tenha me chamado a atenção por carregar “qualquer coisa” de especial. Não há a intenção de classificar esses instantes como melhores em detrimento de outros, mas sim analisá-los como fonte de inspiração, buscando entender o que os destaca.

Era Uma Vez em Anatólia (Bir Zamanlar Anadolu’da, 2011)

Era Uma vez em Anatólia é uma atípica obra investigativa que retrata a busca de um cadáver enterrado na área rural da Turquia, acompanhando no decorrer de uma noite o complicado processo de localização do corpo pela comitiva policial, liderada pelo comissário Naci (Yilmaz Erdogan). Este sofre com a pressão de estar sendo supervisionado por seu superior, o promotor Nusret (Taner Birsel), o qual, por sua vez, estabelece uma relação com o doutor Cemal (Muhammet Uzuner). Porém, ao invés de focar-se no mistério em questão, o sensível roteiro escrito a seis mãos, inclusive pelo próprio diretor Nuri Bilge Ceylan, preocupa-se em estabelecer seus três protagonistas como o centro absoluto da narrativa, criando uma obra envolvente guiada por diálogos nos quais o subtexto impera.

A cena analisada em seguida contém spoilers.

O momento que gostaria de comentar aqui ocorre nos minutos finais de projeção, quando o médico Cemal prepara-se para acompanhar a autópsia do cadáver que fora finalmente localizado. O promotor recita ao datilógrafo a introdução para a operação, e o diálogo que se estabelece é o seguinte (tradução liberal):

Nusret – Foi permitido ao doutor acesso ao corpo. Ele foi oficialmente juramentado. Foi mostrado o corpo. Foi perguntado a causa mortis. Ele respondeu, “Já que a causa mortis não pode ser definida dentro do escopo das evidências, existe a necessidade de uma autópsia convencional”.

Cemal – Com certeza.

Nusret – Sim. Sim, doutor. É isso. Agora é com você. Vou embora.

Se analisado fora de contexto, é uma conversa procedural que nada acrescenta à trama e, na superfície, aos seus personagens. Como porém pertence a uma obra cuidadosamente construída, essa curta troca de palavras esconde em suas entrelinhas o clímax de um conflito interno desenvolvido durante as últimas duas horas de projeção.

Em diversos momentos no decorrer da noite, os dois homens trocaram confissões nas quais o promotor revelou, à sua maneira, uma história que envolvia um amigo e a falecida esposa deste. Percebe-se facilmente, no entanto, que o conto era muito mais pessoal que ele admitia, e obviamente se referia à sua própria mulher que morrera em circunstâncias misteriosas, provavelmente em decorrência de atos do próprio oficial. Enquanto Nusret defende que ela falecera por ter perdido a vontade de viver, o médico usa a razão para argumentar a impossibilidade de tal ocorrência, ressaltando a grande probabilidade de haver sido suicido. Esses diálogos, então, retratam de maneira orgânica e inventiva a antiga discussão religião versus ciência.

Neste ponto, chegamos à cena em questão. Como sua crença vinha sendo derrubada pelos pontos irrefutáveis do doutor, o promotor sorri satisfeito ao ouvir que é impossível decretar a verdadeira causa mortis de alguém sem realizar uma autópsia apropriada. A resposta contida e aliviada de Nusret não decorre em função do assunto em questão, o cadáver da vítima sobre a mesa, mas sim porque ele tem novamente a porta aberta para sua crença de que sua esposa não cometera suicídio, entregando-se à fantasia que melhor lhe convém, já que a ciência admite que nada pode provar.

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É portanto um tocante momento, cujas performances dos dois atores se destacam precisamente por sua simplicidade, respeitando a inteligência do roteiro ao não tentar chamar atenção para si mesmas. O sorriso quase infantil de Nusret é comovente em sua contenção, enquanto o olhar cansado e cúmplice de Cemal parece entender o efeito positivo que suas palavras causam no parceiro, percebendo a inutilidade de prosseguir aquele argumento.

Em termos de direção, Nuri Bilge Ceylan mantém a estética que adotara até então, utilizando-se de longas pausa entre as falas dos personagens e de uma fotografia evocativa. Enquadrando as costas do promotor em primeiro plano num Plongée com uma curta profundidade de campo, segundos antes do diálogo acima, ele estabelece no silêncio o peso que recai sobre o homem enquanto este se perde em pensamentos. Assim estabelece visualmente seu psicológico sem necessitar recorrer a um close up que possivelmente seria uma escolha clichê. Da mesma forma, sua montagem é paciente, mantendo a duração de cada plano longa o suficiente para que possamos estudar cada nuance na expressão daquelas pessoas, permitindo tempo para sentirmos a importância de suas reflexões internas.

Anatolia_01

Uma cena profundamente honesta, guiada por competentes diálogos carregados de subtexto e olhares significativos, que complementa uma obra igualmente sensível e complexa.

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