A Arte da violência

A representação da violência, apesar de seus inúmeros críticos, possui a qualidade de arte. Brutalidade é sempre horrenda e desprezível em planos reais, porém quando transposta para a tela, seja esta o tecido de um quadro ou os pixels de um monitor, representa nada mais que a visão de um artista sobre esta faceta do cotidiano humano e animal, nunca um retrato verdadeiro da natureza. Este é o grande ponto o qual os críticos de filmes violentos parecem não perceber.

Diferente de sites que trazem figuras gráficas de corpos dilacerados, ou usuários de redes sociais que inexplicavelmente regozijam em cima da desgraça alheia, baseando-se em seus próprios preconceitos, a Arte não possui em sua essência a capacidade de se ater aos fatos como o são, e nem deveria ter. Quando um artista, seja este o roteirista, o diretor ou o responsável pelos efeitos especiais/visuais, decide representar em seus filmes momentos de violência, ele pode sim estar buscando a referência na vida cotidiana, mas assim que essas visões são traduzidas pela lente de uma câmera, essa referência perde o valor e molda-se não no existente, mas na percepção única daquele artista, revelando tanto de si mesmo quanto de seu objeto filmado. Nunca em duas obras distintas a brutalidade será representada da mesma maneira, já que as escolhas artísticas de cada diretor criativamente a distorcerá conforme seus gostos pessoais e posicionamentos perante a vida.

Há um estudo filosófico na decisão de Michael Haneke ao manter fora de quadro as agressões contra a família protagonista, em Violência Gratuita (Funny Games, 1997). Enxergamos, em todo seu necessário gore, somente os ataques promovidos contra os assaltantes sádicos, discutindo com isso nossa percepção e aceitação da violência na ficção, ou seja, quando consideramos válido seu uso. Martim Scorsese vê a agressão como um reflexo externo inevitável do tumulto interno de seus personagens, presos em ambientes que estimulam suas condutas erradicas. Não muito diferente, Zhangke Jia não vê um fim aos atos violentos enquanto houver a pressão social e estrutural influenciando negativamente seus conterrâneos, como demonstra em A Touch of Sin (Tian zhu ding, 2013). No lado oposto há Gus Van Saint que, em Elefante (Elephant, 2003), enxerga na violência um espetáculo horrível para o qual não há uma reação apropriada, retratando seus personagens de maneira quase catatônica, como se suas mentes não processassem a cena. Já Quentin Tarantino, principalmente em obras como Kill Bill (2003/2004), carrega suas imagens de formas de arte pós-moderna, estilizando seus quadros de maneiras inventivas, focando na forma acima de tudo.

Dito isso, a violência é um assunto que, por motivos óbvios, merece um respeito superior a todos os outros. Há portanto uma necessidade ética de não retratá-la de maneira perigosa, já que possui o atributo de ser uma linguagem universal. Uma troca de tiros ou uma briga de bar é compreensível em qualquer país ou cultura do planeta, tornando-se então a ferramenta de comunicação mais acessível nas mãos de um criador. Como não poderia deixar de ser, o cinema é povoado por cineastas e produtoras que, ao contrário dos artistas citados, perdem-se no campo da moral com obras que não merecem o respeito e atenção que recebem.

Minha crítica com esse comentário não se dirige a alvos fáceis como obras slash/horror. Séries como O Albergue (Hostel, 2005) ou Jogos Mortais (Saw, 2004) têm seus problemas morais, com certeza, já que se entregam ao gore como meio e fim próprio. Porém o cinema comercial é dominado por longas moralmente muito mais dúbios que esses: filmes de ação PG-13*, incluindo obviamente aqueles que formam a atual era de ouro dos super-heróis.

Há algo de ofensivamente desonesto em diversos níveis na concepção da faixa etária PG-13, desenvolvida pelo órgão americano MPAA. Este afirma que “pode haver representações de violência em um filme PG-13, mas geralmente não de maneira realística nem extrema ou constante”. Em que momento da nossa evolução como sociedade foi definido como uma ideia sensata permitir audiências mais jovens testemunharem imensas doses de agressões físicas, desde que estas não sejam realistas? Se permitimos crianças de treze anos assistirem um homem vestido de morcego literalmente nocauteando dezenas de homens, por qual motivo exatamente não é aconselhável as deixar assistindo a mesma cena, mas de maneira realista, com cada soco tendo o resultado que deveria ter na carne? Esse texto não tem a intenção de se juntar ao infindável debate se violência na ficção gera reflexo na realidade (acredito que não gere), mas se me atrevo a dar um ponto aos que acreditam que sim, diria que essa higienização desonesta da brutalidade pode, sim, gerar um impacto negativo.

Porém desejo aqui discutir a desonestidade intelectual e artística dessas cenas. Os autores que citei anteriormente, todos eles em maior ou menor grau, tiveram liberdade artística de retratar suas visões e suas crenças, utilizando-se da linguagem cinematográfica para promover seus ideais, variando do pós-moderno à emulação do documental. Por outro lado, obras como as da Marvel que reinam nos Multiplex pelo mundo afora, tomam não liberdades artística na hora de representar a ação, algo que poderia ser respeitado, mas sim decisões financeiras, utilizando-se do sistema hipócrita em vigor unicamente para atrair mais público. Claro, esse não é o único aspecto que sofre em prol da comercialidade, já que roteiros e outras áreas criativas são podadas para se adequarem à visão do que vende ou não dos estúdios. Porém quando se fala de algo polêmico e possivelmente perigoso como a violência, acredito precisar haver um discernimento maior sobre o certo e o errado, e acreditar que mostrar, mas não de forma realista, é uma solução para apresentar ao público mais jovem filmes de ação é, no mínimo, hipócrita.

Peguemos por exemplo Capitão América: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, 2014) e O Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), ambos estrelados pelo ator americano Chris Evans. Neste, dirigido pelo ótimo sul-coreano Joon-ho Bong, temos uma ficção científica instigante que não esconde os efeitos físicos das batalhas pelas quais seus personagens passam, transformando protagonista, no final da projeção, em uma sombra do que fora no princípio. Temos no processo imagens icônicas que remetem diretamente à realidade, especialmente na cena do conflito contra os mascarados que se assemelham aos neonazistas que lotaram as ruas da Ucrânia ou às imagens vazadas de soldados americanos sádicos nas vilas do Iraque. Há um peso palpável por detrás de cada vida ceifada. Até mesmo o psicopata vivido por Vlad Ivanov precisa de certo tempo para se recompor após matar alguém, como se estivesse perdendo mais um pedaço de sua humanidade. Enquanto isso, Steve Rogers em Cap. América atravessa todos os obstáculos sem qualquer sinal maior de desgaste físico, nem mesmo seus oponentes realmente passam por mazelas maiores. Mesmo tendo muito mais momentos de ação, é como se não houvesse um perigo sequer envolvido nessas sequências e tudo não passasse de uma aventura. Comparando a luta que se passa no elevador, onde o herói nocauteia diversos agentes com uma das sequências de The Raid 2: Berandal (2014) que se passa no banheiro da prisão, percebe-se exatamente a desonestidade visual que os estúdios promovem em nome do lucro. Em ambos o protagonista realiza proezas improváveis em situações reais, mas é só no longa de Gareth Evans que há a percepção de um esforço físico real, no qual ambos os lados da batalha passam por lesões muitas vezes letais. No longa do soldado americano, chega a ser ridículo assistir todos aqueles homens nocauteados como se estivessem dormindo. É como se todo o universo DC e Marvel viesse de Krypton e ninguém pudesse se machucar de verdade.

Isso obviamente não se aplica somente aos filmes de super-heróis, mas a qualquer obra voltada ao gênero ação que queira garantir mais ingressos. Coisas como Sr. & Sra. Smith (Mr & Mrs Smith, 2005) recebem aprovação para um público mais jovem mesmo contendo cenas com carros explodindo com seus passageiros dentro. Em comparação novamente com The Raid 2, Gareth Evans faz questão de, na perseguição de carro no final do segundo ato, mostrar o motorista sendo arremessado através do para-brisa, relembrando ao público que a violência nunca é gratuita. Há pouco tivemos o remake de Robocop (2014), um dos filmes mais violentos e comemorados dos anos 80. Para abater o orçamento estourado, a MGM obrigou José Padilha a higienizar a produção, boicotando a essência e mensagem da história do cyborg. Lembrando ser Padilha o mesmo diretor que entendeu a importância de segurar um close por intermináveis segundos em um jovem enquanto este era torturado pelo Capitão Nascimento em Tropa de Elite (2007). Para uma narrativa que se propõe a discutir a violência atual nas grandes cidades, é inexpressivo retirar essa ferramenta fundamental das mãos de um cineasta como Padilha, que sabe a utilizar de forma precisa e brutal.

Vamos esquecer no entanto por um segundo todo esse meu discurso sobre moral e ética na representação da brutalidade humana e vamos focar naquilo que, em última análise, é o que importa: a narrativa. Como recurso narrativo, a boa utilização de cenas gráficas, em maior ou menor grau, é simplesmente bom Cinema. Não passa de uma linguagem, uma ferramenta que transcende gêneros e provoca as mais variadas reações no público, do choque à tensão, da catarse ao riso. Uma cena posicionada no momento certo, um close de uma ferida ou o plano aberto de alguém sendo desmembrado, confere peso e drama a uma cena, colocando-a em perspectiva e aumentando os riscos de seus heróis. Kick Ass (2009) é um bom exemplo de filme que usa a violência estilizada de diversas maneiras, comicamente e dramaticamente. Quando percebemos que o protagonista pode realmente se machucar e talvez morrer, damos um novo ângulo aos seus dilemas, algo que nunca ocorre em obras mais populares como Os Vingadores (The Avengers, 2012), mesmo que neste metade da cidade de Nova Iorque seja destruída (e de novo, não percebemos em momento algum a urgência de impedir a invasão, já que tudo que vemos é concreto sendo demolido, nunca vítimas). Em casos como Homem de Aço (Man of Steel, 2013), de nada adianta o diretor mergulhar suas imagens em tons sombrios se, em momentos de verdadeiro perigo, nunca testemunhamos as consequências dos atos dos vilões, mesmo quando o protagonista arrasa com quase toda Metrópolis. Quando se cria projeções cujo foco principal é a ação e o espetáculo, perde-se uma dimensão de imersão emocional inestimável ao higienizar seus atos e não apresentar em toda a extensão o que realmente pode ocorrer aos protagonistas. É como testemunhar por duas horas bonecos de plástico se digladiando.

E não é somente um recurso narrativo que se perde no processo de higienização, mas também um elemento de discussão sociológica. Como citei anteriormente, Haneke esconde o grafismo para pontos chaves, discutindo quando aceitamos acessos de brutalidade como catarse. Tarantino, em Django Livre (Django Unchained, 2013), estiliza a violência contra os brancos, mas a mantém séria e realista contra os escravos, salientando em comparação o sofrimento que o sistema trouxe aos negros. Padilha, ao não desviar a câmera nas cenas de tortura em Tropa de Elite, joga na cara de reacionários como a desprezível Rachel Scheherazade o resultado de suas exigências por mais brutalidade policial contra “marginais”. Esses momentos, aliás, são justamente o que separa seus filmes de uma visão fascista sobre o assunto, tornando-se indispensáveis para a obra. Caso tivesse perdido a liberdade de uso dessa ferramenta, sua projeção certamente beiraria a apologia ao crime.

Viemos por um caminho estranho e moralmente duvidoso desde que cenas como o confronto final em Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969), ou o balé mortal em câmera lenta em Bonnie e Clyde (Bonnie and Clyde, 1967) chocaram o público. O cinema comercial, principalmente o voltado para um público mais jovem como os de super-herói, tornaram-se imensamente mais violentos que essas cenas icônicas, porém em sua limpeza visual passam a impressão de serem menos, escondendo suas verdadeiras facetas. Porém, como alguém que foi exposto a filmes violentos desde muito cedo, não advogo por um cinema moralista com menos sequências do gênero, mas sim com estas em um tom mais ético que não disfarcem o que realmente são.

 

* PG-13 é a classificação etária nos Estados Unidos para filmes recomendados a crianças acima de 13 anos. Outras classificações são: G (todas as idades), PG (acima de 10 anos) R (acima de 17 anos), NC-17 (proibido para menores de 17 anos).

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