Godzilla (2014)

Sou obrigado a escrever sobre a mais nova obra da mitologia do rei dos monstros, Godzilla (2014). Digo isso porque Mothra vs Godzilla (1962) foi o primeiro longa que assisti na vida, dublado e em vídeo cassete (talvez minha memória seja falha e o primeiro filme que assisti tenha sido o relançamento de Bambi, 1942, nos cinemas, mas de qualquer modo Godzilla foi quem deixou uma marca maior). Desde então, tenho imensa interesse no kaijin, sendo um grande fã de seu design e sua mitologia, mas não de seus filmes. Apesar de não ter tido ainda a chance de assistir todas as trinta entradas da franquia, conheci o suficiente para entender que na realidade as obras que protagoniza são extremamente fracas em diversos níveis, beneficiando-se unicamente da nostalgia e da lenda de seu design icônico, já que foi um dos alicerces desse gênero. As narrativas, além de absurdas, são frequentemente lentas e mal estruturadas, contando com personagens humanos rasos que se alimentam do camp, chegando ao auge na figura dos alienígenas em Godzilla: Final Wars (2004), cujas composições parecem ter saído direto de um episódio de Power Rangers. Portanto, a franquia já havido mergulhado no absurdo e no medíocre muito antes de Roland Emmerich colocar suas mãos e, milagrosamente, piorar o cenário no remake de 1998, cujo maior pecado é alterar de maneira inexplicável o visual do protagonista. Felizmente o original corrige essa aberração o aniquilando em segundos.

Porém, esse clima de aventura e camp que tomou conta da franquia nada mais é que uma completa distorção da única obra verdadeiramente memorável, o original de 1954, dirigido por Ishirô Honda. Nesse, não há o menor senso de paródia presentes em suas continuações. É uma nada sutil alegoria aos perigos que a humanidade se colocava então ao prosseguir os testes nucleares na ilhas do Pacifico, sendo de certa maneira uma tradução literal das palavras de Oppenheimer. Honda narra sua história buscando claras referências no movimento neo-realista italiano, buscando emular a realidade sempre que possível. Portanto, quando vemos uma Tóquio variada pela destruição e contaminada por um rastro de radiação, o que testemunhamos é a recriação dolorosa dos efeitos dos massacres promovidos em Hiroshima e Nagasaki há menos de uma década de seu lançamento. Não há em momento algum gags visuais como Emmerich insistiu em fazer, achando graça em como os militares destruíam a cidade de Nova Iorque mais que o próprio monstro. Mesmo a conclusão da obra é um lamento e não um grito de vitória, já que, para o deter, a humanidade acaba criando uma arma ainda mais poderosa do que as que despertaram o kaijin das profundezas do oceano (esta viria a se transformar em um monstro que, ironicamente, Godzilla precisa derrotar em Godzilla vs Destroyah, 1995). Além disso, há a inconsolável tristeza do Dr Kyohei Yamane (interpretado por um dos parceiros de longa data do mestre Kurosawa, Takashi Shimura) ao testemunhar a morte de um ser tão imponente da natureza (ao contrário do que muitos pensam, Godzilla é uma criatura pré-histórica adormecida que os humanos acordam, e não criam, com a radiação dos testes nucleares). Tudo isso transforma essa obra, de um gênero tão fácil de dispensar como “pipoca”, em uma carta aberta ao desarmamento nuclear, mostrando cicatrizes reais e medos através de uma ótica fantasiosa em um perfeito exemplo de ficção-científica em sua forma mais pura.

E é por causa dessa imensa admiração pelas raízes do personagem que admiro tanto esse novo remake do diretor Gareth Edwards. Vindo de uma excelente estreia na função com Monstros – Zona Interdita (2010), obra que mistura com competência diversos gêneros, Gareth demonstra não perder a mão criativa diante de seu primeiro grande orçamento e entrega um blockbuster autoral que se destaca da horda de produções comerciais do gênero.

As escolhas do diretor não são nada menos que corajosas. Mantendo a aparição criatura que dá nome ao filme ao mínimo possível, Gareth parece entender que efeitos visuais grandiosos por si só já não são o suficiente para encantar uma audiência (algum dia será que já foram?). Em uma época em que nossos sentidos são massacrados por assédios visuais e sonoros dos grandes filmes de estúdio, este provoca ao invés de mostrar. O diretor fecha a porta para os primeiros conflitos, literalmente em um caso, criando uma expectativa insuportável, a qual é suprida no clímax. Sua câmera está quase sempre ao ponto de vista de algum personagem humano, evidenciando a grandeza dos kaijins através da comparação, e não do espetáculo gratuito gerado por tomadas aéreas. Em tempos de Transformers, Godzilla é uma brisa de ar fresco ao não empregar cortes rápidos e batalhas convulsas, trazendo planos longos para o gênero, nos quais podemos apreciar os quadros tragicamente belos do diretor e sua extensa equipe técnica. Além disso, ele não aposta em batalhas extremamente estilizadas e coreografadas, homenageando no processo as versões japonesas ao emular o confronto corporal que poderia ser recriado com os uniformes de borracha.

Em seus minutos finais, o filme não se rende à estética da destruição, como poderia facilmente. Gareth filma esses momentos preocupado mais com a atmosfera do que o espetáculo gratuito, portanto compõe seus quadros de maneiras evocativas que remetem diretamente à tragédias reais e atuais como Fukushima, além de quadros belos e melancólicos como o salto de paraquedas que sangra o céu de uma cidade devastada. Contando com as composições de Alexander Desplat, muitos dos confrontos são contemplativos e tristes, encontrando momentos emotivos em situações inesperadas. Pessoalmente, há um encontro em particular que me emocionou mais que qualquer interação entre humanos.

A obra possui suas parcela de problemas, no entanto. O roteiro de Max Borenstein é eficiente o suficiente para funcionar em sua narrativa convencional, porém é recheado de personagens esquecíveis, na melhor tradição da franquia, com exceção talvez do ótimo Ken Watanabe e seu Dr Ichiro Serizawa. Isso talvez seja uma constatação de que, por mais que os americanos tentem, o kaijin pertence inevitavelmente ao Japão. Utiliza também ideias recicladas de outras obras que somente não parecem mais clichés graças a maneira que o diretor as aborda.

Borenstein, entretanto, acerta naquilo que em última estância é a alma do projeto: o Godzilla. Suas escolhas para a criatura, desde sua origem a sua personalidade, revelam-se essenciais para o sucesso da obra. Primeiramente, temos uma modernização da alegoria que narrativamente funciona e respeita profundamente o original, além de deixar pontas abertas para futuras continuações já confirmadas. Seu Godzilla é uma força da natureza, um ser que transcende eras e civilizações. A ideia de que a humanidade pode despertar forças destrutivas naturais com o uso de urânio enriquecido para energia e armas permanece atual, e a inclusão de lixo tóxico na equação é um exemplo de discussão mal explorada ainda pela ficção. É impossível não apreciar a ironia de ver um kaijin utilizando uma ogiva nuclear com carinho maternal. Também um dos grandes acertos é o fato de que os humanos, sejam os militares ou os protagonistas, pouco interferem no confronto entre aquelas manifestações da natureza. Ao contrário de outras obras que tentam dar importância a ação dos atores de carne e osso, aqui a verdade é que seus atos pouco importam para a narrativa principal, e o que fazem acaba quase sempre piorando a situação. Mesmo sendo um coadjuvante em relação a tempo em cena, aqui o Godzilla é seu próprio protagonista, indomável e implacável.

Corajoso em sua abordagem não convencional para um filme desse orçamento mas prejudicado por um roteiro funcional, esse novo Godzilla não é somente um dos melhores da franquia, como é também uma de suas únicas obras boas. Além de modernizar e ressuscitar um novo e excitante espaço para uma das criaturas mais icônicas do cinema, ainda consegue homenagear o original e seus criadores.

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