X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of a Future Past, 2014)

Aqueles que me conhecem já sabem bem minha posição negativa em relação a filmes de super-heróis atualmente, apesar de ser um grande fã do gênero. Coloco a culpa de minha frustração em especial na interminável safra de vingadores da Marvel, empresa que almeja lançar duas obras por ano. São, em sua grande maioria, películas desnecessárias que somente servem como caça-níqueis intermediários para o carro chefe da produtora, a série Os Vingadores (The Avengers), produção pela qual tenho pouco apreço. A exceção talvez fique com algo como Capitão América: O Soldado Universal (Captain America: Winter Soldier), que busca um diferencial ao se passar por um thriller, trazendo uma maneira diferente de contar sua história. A quantidade de filmes de super-heróis lançados por ano é relativamente pequena, porém com o milionário e incessante marketing por trás de cada novo lançamento, a sensação é de que toda semana estamos aguardando mais uma projeção inundar as salas de cinema, trazendo algo que, mesmo muitas vezes sendo divertido como a série do Homem de Ferro (Iron Man), em última análise é rasa e esquecível.

Filmes como esse X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of a Future Past) me fazem perceber que meu problema não está em nada relacionado ao gênero em si, mas à falta de ambição de certos criadores, algo que não falta nesse projeto.

Centrado em seus personagens, e não no espetáculo, Bryan Singer e a roteirista Jane Goldman entendem que grandes cenas de ação somente funcionam quando realmente nos importamos e tememos em relação aos envolvidos no conflito. Com isso, o que acompanhamos aqui são arcos dramáticos cuidadosamente construídos, com personagens que tomam decisões que nunca soam como requisitos de roteiro, mas são resultados de um crescimento pessoal visível. O fato de que, acrescido a isso, o diretor ainda cria momentos de ação memoráveis é quase um bônus, uma vez que somente os conflitos verbais entre Xavier (James McAvoy/Patrick Stewart) e Magneto (Michael Fassbender/ Ian Mckellen) são o suficiente para encher a projeção com alguns dos melhores momentos da série inteira, algo que já ocorrera em X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class). Aliás, se tenho uma consideração negativa a esse filme, essa seria a falta que senti do apelo estético de Matthew Vaughn. Não que Bryan Singer não faça um trabalho exemplar aqui, porém o diretor de Primeira Classe possui um talento para traduzir as páginas dos quadrinhos para a tela que admiro muito.

No entanto, o que provavelmente mais admiro em Dias de um Futuro Esquecido foi a importância dada a Raven/Mística (Jennifer Lawrence). Em um subgênero frequentemente dominado por um machismo nerd admitido, os personagens femininos são em grande maioria renegados a: objetos de conquista; donzelas em perigo; ou, na melhor das hipóteses, ajudantes do herói. Não recordo de nenhuma obra que tenha dado tamanha relevância a uma mulher como aqui, presumindo que Dredd e sua Ma-Ma (Lena Headey) não se qualifique por não ser sobre super-heróis, apesar de baseado em uma HQ. A narrativa basicamente gira em torno da mutante, a qual deve ser detida a qualquer custo pelos protagonistas, portanto suas ações são determinantes da história. Já tivemos algo parecido em X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand), porém naquele Jean Grey (Famke Janssen) era dominada pela entidade da Fênix, então suas escolhas se tornavam reflexo de algo superior a si mesma. Diferentemente, a Raven aqui é um ser feminino dotado de vontade própria e cujo arco dramático não é veiculado às necessidades dramáticas de um homem, tornando-se o que acredito ser um caso único no universo cinematográfico dos super-heróis.

Beneficiado por um senso de humor eficiente e por um elenco coeso que parece crescer junto de seus personagens, esse último capítulo é possivelmente a melhor entrada da série desde X2, sendo assim desde já um dos grandes lançamentos do ano e um dos melhores filmes do gênero.

Espero que os produtores de Os Vingadores: A Era de Ultron (The Avengers: The Age of Ultron) assistam e tomem algumas notas para pararem de confundir carisma com desenvolvimento de personagens. Ou que, no mínimo, isso tire a atenção deles de Transformers.

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